segunda-feira, 14 de abril de 2014

A isquemia e seus transtornos

Estava deitada no sofá, vendo televisão. Não me recordo o que era, mas sei que não era algo que pudesse me estressar ou fazer pensar na vida, era algo normal que me distraía. Quando, do nada, minha boca começou a ficar torta, já não tinha domínio do meu lado esquerdo do corpo. Aí sim comecei a ficar desesperada, pensei: "estou tendo algum treco, um AVC, morrendo, sei lá! Preciso ligar para a minha mãe agora!" 
Ela estava de plantão, aliás, ela sempre estava de plantão nos meus piores momentos, maiores crises de endometriose. Não a culpo. Se eu tinha um teto, algo para comer, foi porque ela aguentou a barra sozinha, já que nessa altura do campeonato, eu não tinha como contribuir financeiramente, afinal, quem iria contratar uma enferma? Ainda mais na minha profissão onde exige que a pessoa seja atuante? NINGUÉM! E assim foi. Quer saber, eu estava estressada sim, embora estivesse, apenas, vendo televisão. Estressada por ser doente e ser inútil.
Liguei para ela e sem titubear, joguei: "mãe, me ajuda, estou morrendo! Estou com a boca torta, meu lado esquerdo parou, não consigo levantar do sofá." Ouvi um choro do outro lado da linha e um desespero tomar conta da pessoa que é a mais calma que eu conheço. Ela pediu para que eu mantivesse a calma e desligou. Alguns minutos se passaram e liga meu pai, aos berros com seu também desespero: "estou pegando um táxi e indo praí. Vai devagar até o interfone e fica por lá, para me atender. Aguenta firme!" Em seguida, liga uma amiga - um dia faço um post sobre ela - e diz: " tô pegando o carro e indo praí." Mas gente, o que minha mãe fez?
Esperei quem chegasse primeiro para me ajudar a sair da situação de inércia que eu me encontrava. Minha amiga, curiosamente, chegou primeiro, justo ela que mora mais longe de mim que meu pai. Consegui, jogando meu corpo, ir até o interfone e fiquei me apoiando na parede. Ela subiu, me ajudou com o banho e, Fisioterapeuta, começou a fazer massagens no meu braço, execício na minha boca...quando meu pai chegou, eu já estava pronta e descendo rumo ao hospital.
Chegando no hospital, minha mãe já estava lá. Desesperada, chocada em me ver assim. Confesso que, a endometriose doía e muito, mas a sensação de ter o corpo paralisado era muito pior. Fui logo atendida. Lembro que o médico pegou meu braço esquerdo, levantou bem no alto e soltou. Ele caiu como se não fizesse parte do meu corpo. E passou vários exames, remédios intravenosos, subcutâneos...como fui espetada naquele dia! Queria que eu ficasse internada e para a minha mãe disse: " o que sua filha teve foi uma isquemia transitória, devido a algum estresse que ela possa estar passando. Acredito que se ela seguir as recomendações, logo irá passar. Mas a Fisioterapia vai ser fundamental." 
Pela pura sorte e graça do destino, eu tinha uma fisioterapeuta a minha disposição. E pegou pesado. Era exercício todo o santo dia para endireitar minha boca e minha mão que não abria. Fiquei com o braço torto e mão fechada - sem piada - durante cinquenta dias. Era complicado ter que depender de alguém para comer, tomar banho, ainda mais com minha mãe mais ausente do que presente. Praticamente, minha amiga passou a morar comigo, ou eu com ela, já que ela me colocava no carro e me levava para a sua casa, para cuidar melhor de mim. Quando minha mãe não estava em casa ela vinha para cá ou me levava para lá. Isso durou vários meses, para ser mais exata, desde que descobri a endo.
 Aos poucos tudo foi suavizando, minha vida voltando a ser sofrível só por causa da endometriose...mas, ainda seguindo uma recomendação médica, eu estava proibida de me aborrecer, sofrer fortes emoções, esquentar cabeça.. afinal, além de recém infartada, eu tinha sofrido uma isquemia. Olha a que ponto eu cheguei! Tudo isso em um ano! Mas, perto do final do ano, fui agraciada.

terça-feira, 8 de abril de 2014

A procura do médico perfeito

Andei sumida, pois a danada voltou a me atacar, mas voltei para contar como foi a procura pelo médico certo para me operar e o q eu tive que passar até que o abençoado aparecesse na minha frente. Não foi fácil. Foi difícil, penoso, a ponto de quase desistir. Mas fui a luta.
Depois de ter ido no hospital público atrás de um cirurgião, voltei a estaca zero. Então, comecei uma busca incessante. Pesquisei sobre a doença na internet, ouvi pessoas que passaram pela cirurgia que eu teria que passar. Fui em busca de informações e confesso que, se eu tiver que palestrar sobre o assunto...sou capacitada! Busquei na internet também, cirurgiões especializados em endometriose e videolaparoscopia.  Fiz uma lista com todos que atendiam meu plano de saúde e marquei consulta. Uma desilusão atrás da outra.
No primeiro em que fui, exigiu que eu estivesse com todos os exames em mãos. Precavida que sou, já estava. Analisou e pediu que eu marcasse com sua secretária uma outra consulta. Assim foi feito, voltei nele e o mesmo disse que não poderia me operar. Motivo aparente? Nenhum. Não chegou a alegar, absolutamente, nada, Apenas disse NÃO. 
Já o segundo foi mais direto: "não é minha especialidade. Não sei o motivo do meu nome constar na relação do plano de saúde". Sai de lá arrasada. Essa busca por um médico era estressante, pois além de ir com esperança, eu ia cheia de dor e sangramento. E não era perto da minha casa, eram em bairros distantes, que eu precisava andar muito do ponto de ônibus até o consultório ou gastar rios de dinheiro com táxi. E esse, em questão, foi tempo, dor, dinheiro jogado fora.
Parti para o terceiro médico achando que, se eu levasse mais um não, já estaria apta a pedir música no Fantástico. Já tinha até a canção em mente. E olha, se o repórter tivesse me entrevistado no dia da consulta, eu teria pedido a tal. Mais um médico me dizendo que não me operaria. Dessa vez, por não ter uma equipe e um hospital apropriado.
O quarto médico foi o mais sofrido para mim. Me recordo bem desse dia, acho que jamais irei esquecer. Chovia muito no Rio de Janeiro. Uma chuva braba de inverno. O consultório era lá para dentro da Tijuca. E eu fui sangrando, beirando a uma hemorragia, minha mãe ao meu lado pedindo a Deus que me desse forças para conseguir andar debaixo daquela chuva toda e nós duas com a esperança de que esse fosse o bendito médico da minha salvação. Após uma caminhada de quinze minutos, chegamos. Me atendeu rápido, examinou meus exames e disse que me operaria. Mal pude conter minha felicidade. Nossa! Eu via que, enfim, meu sofrimento estava com os dias contados. Mas como eu já disse antes, mulher gosta de se iludir...
Ele pediu que eu voltasse para pedir exames pré operatórios. Voltei. E para a minha surpresa, ele disse que não iria me operar mais. MAS COMO ASSIM? O QUE O FEZ MUDAR DE IDEIA? Falou: "não estou abandonando o caso, apenas transferindo a minha esposa, que tem mais habilidade e entendimento com a endometriose". Só que o curioso é que a esposa dele NÃO tinha nada do que ele falou. Só depois de marcar uma consulta com ela, fiquei sabendo. Ou seja...ele me enganou e usou a esposa para isso. Pensei em processar. Mas seria um sofrimento a mais.
Antes de chegar no sexto médico, meu pai, não aguentando mais me ver sofrer daquele jeito, sugeriu que eu me inscrevesse no SUS. Irônico pagar plano de saúde - que não é barato - para recorrer ao SUS, não?! Pior é conviver com o inferno que eu estava convivendo, isso sim. Se lá estava a minha solução, fui pagar para ver. Cheguei as 7h da manhã e sai de lá 18h da tarde. Agora, imagine uma pessoa sofrendo de dor, a ponto de não ter posição para sentar, ficar em pé, toda inchada. Essa era eu e muito mais. Meu pai quase quebrou o ambulatório, por conta da espera que tive que passar. E o interessante ainda estava por vir: fui encaminhada para fazer a videolaparoscopia, porém, o SUS iria me ligar quando um hospital tivesse vaga. Não sabia se ria, chorava, se chorava mais do que já estava chorando. Fiquei nessa indecisão se chorava ou se chorava muito mais até chegar em casa.
Os meses foram passando, o Gestinol não foi resolvendo, as dores aumentando, minha vida parando, a depressão ficando, até que, por conta de toda essa tristeza e desilusão, sofro uma isquemia transitória. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

A descoberta Parte Final

Fiz a ultra transvaginal com a urgência que a situação pedia. Quando cheguei no local para fazer, não imaginava o que estava por vir, o que iria escutar. A médica que realizou o exame ficou o tempo todo com o semblante sério, preocupado. Vendo aquilo, não aguentei e perguntei: "está acontecendo alguma coisa? Estou vendo a senhora tão séria. Pode falar, eu aguento!" Não, eu não iria aguentar o que ela estava para me falar. 
Foi então, que após um tempo em silêncio, ela me questionou:" você já está fazendo tratamento para curar desse tumor que você tem?" COMO É QUE É? TUMOR? Achei aquilo uma piada de péssimo gosto, até porque, três meses atrás realizei o mesmo exame e não tinha tumor nenhum! Perguntei: "como assim tumor? Eu não tenho tumor algum!" Ela continuou: "tem sim. Olha ele aqui!" Mostrou na tela. Meu chão veio abaixo. Coisas do tipo: vou morrer, como vou contar isso a minha mãe, como vai ser a minha vida, como assim eu tenho um tumor...vieram em minha cabeça de segundo a segundo. Confesso que ela explicou tudo, mas não a ouvia. Minha mente e meu coração não me deixavam ouvir mais nada.
Voltei no médico e mostrei o exame. Chorando. Ele viu o exame e sem pestanejar, soltou: "seu caso é um dos mais sérios que já passou pela a minha mesa. Você terá que ser operada, Raphaele e já aviso logo que não poderá ser mãe." Chorei mais e mais e muito mais. Não sabia se chorava por meu caso ser grave, se chorava por ter que ser operada ou desabava por ele ter dito, sem piedade alguma, que eu jamais seria mãe.
Parecia que nesse dia ele estava inspirado em me fazer sofrer. Continuou despejando bombas em cima de mim: " Não vou poder lhe operar. Não quero colocar ainda mais sua saúde em risco, pois se eu a operar, terá que ser de barriga aberta e tenho medo das complicações cirúrgicas isso pode causar. Recomendo que procure um outro médico, especializado em endometriose e que opere por videolaparoscopia. Aliás, conheço um, vou lhe repassar a ele." Questionei: " mas se a minha situação é tão grave, por que está fugindo assim? Já me trato com o senhor, me opere, por favor!" Ai, ele finalizou: "posso operar sim, mas cobrarei 10 mil reais por fora, sem recibo." MAS COMO ASSIM? EU PAGO PLANO DE SAÚDE PARA QUÊ??? Fez -se um silêncio no consultório. Minha mãe olhou para mim como quem diz: "não fala nada. Vamos resolver isso. Vai dar tudo certo!" Eu e minha mãe sempre conversamos muito com o olhar e foi no olhar dela que pude ver o quanto estava sofrendo, mas querendo se manter forte para me ajudar.
Ele pediu que eu continuasse com o Gestinol e receitou mais um remédio, o Ômega Mater. Segundo ele, iria me ajudar com as fraquezas que eu sentia, me ajudaria a ficar de pé, pois nessa altura do campeonato, eu já andava curvada, por conta das fortes dores que sentia. Pediu uma RM, TC e o CA 125. Fiz todos os exames. Em todos foi comprovado: endometriose profunda, alastrada para outros orgãos, como bexiga, intestino e diafragma. Quanto ao CA, deu uma alteração considerável, indicando que eu estava em estágio cancerígeno. 
Meu mundo desabou. Entrei em depressão. Chorava desde a hora que acordava, até a hora que iria dormir dopada. O Gestinol junto a depressão fez com que, em 40 dias, eu perdesse 15kg. A doença foi avançando, a ponto de andar carregada de um cômodo a outro, precisar de alguém para me dar banho. Precisar ficar internada toda semana, pois os remédios que eu tomava para dor, já não solucionavam mais o meu problema. Enquanto escrevo tudo isso, passa um filme em minha cabeça e o choro é inevitável. Sofri muito. Dizem e acredito que Deus tem um propósito para cada um, se esse era o meu fardo, tinha que passar. Ainda passo.
Fui no médico que ele me indicou. Chegando lá, ele me examinou com toques, disse que já estava no meu reto a doença e o melhor - estou sendo irônica - ele ainda iria me dizer: " Seu caso é grave. Caso você não saiba, endometriose não tem cura. Precisa ser operada para amenizar esse problema, mas não vou colocar meu CRM em risco. Vou precisar de uma grande equipe para lhe operar, por isso, quero 20 mil reais em espécie e sem recibo" E concluiu: "é isso ou você procura uma rede pública, pois dificilmente algum médico particular irá querer lhe operar ou o plano irá cobrir com as despesas." Mais uma vez minha mãe me olhou e sinalizou para que eu me levantasse e encerrasse a consulta. Tanto ele quanto o primeiro médico que me consultou, nunca mais me viram.
A solução era hospital público, mesmo eu tendo plano de saúde? Beleza. Lá fomos eu e minha mãe. Chegando lá, mais um baque: centenas de mulheres na fila de espera, greve de anestesista e caso eu esperasse, minha cirurgia seria no final do ano seguinte. Ou seja...fui até lá a toa. E detalhe: era o único hospital público que tratava de mulheres com endometriose na cidade. Mais uma derrota. Mais uma vez voltando para casa aos prantos. Mais um dia de sofrimento. 

terça-feira, 1 de abril de 2014

A descoberta Parte II

Encontrei o Ginecologista mais louco que poderia encontrar. Daqueles que te atende cantando "Sandra Rosa Madalena". E estou falando muito sério sobre isso! Enfim, chegando em seu consultório, me perguntou - cantando - o que eu fazia ali. Falei que estava há um certo tempo sem fazer preventivo, queria saber como estava a minha situação, por conta de um problema que eu passara um ano antes (algo que contarei em outro momento) e que estava suspeitando de alguma inflamação, já que estava sentindo cólicas mesmo não estando em período menstrual.
Ele colheu o preventivo, me passou uma ultra transvaginal e pediu que eu voltasse assim que tivesse os resultados na mão. Assim o fiz. Voltei na esperança de não dar nada no preventivo e que minha ultra mostrasse que estava tudo em perfeito estado com meu útero e afins. Por um lado foi assim, mas pelo outro... Ele falou:" pois bem, dona Raphaele, pelo o que pude ver no seu preventivo, nada consta de absurdo. Nenhuma anomalia, nada que possa causar sustos" Respirei aliviada e minha mãe também. E continuou: " mas vejo que na sua ultra apareceu algo, parece ser endometriose. Preciso de mais exames para comprovar isso. Mas tenha calma. Não é nada que possa apavorar...por enquanto." Endometriose...nunca tinha escutado essa palavra em minha vida! Ai ele começou com perguntas indiscretas, do tipo: sente dor ao ter relação sexual, sente dor ao evacuar, sente dor ao urinar, tem problema para engravidar... Nossa! Para que saber disso tudo? A tal da endometriose causa todo esse transtorno? Mal sabia eu que causa isso e muito mais. Após uma sequência de sim, não, sim, não para as suas perguntas, ele concluiu a consulta: " vou lhe receitar um anticoncepcional chamado Gestinol 28. Ele vai suspender sua menstruação, amenizar a sua dor e tratar a endometriose, que parece ser fraca. Acredito que só com esse tratamento resolva. Quero que volte ao meu consultório após três meses de tratamento, para refazer a ultra." Fiquei nervosa. Nunca fui de colocar hormônio no meu organismo. Sou daquelas que tomava pílula só pro carnaval, sabe? Para a menstruação não ferrar com a minha folia, poder curtir numa boa...pílula do dia seguinte? Nunca tomei. Nunca precisei. Ai me vem esse médico me dar um anticoncepcional de uso contínuo? Mas como assim???? 
Fui na farmácia. Até que dava pro bolso, apenas R$ 34,00, por quê não? Esperei minha menstruação vir para tomar. Ela, em média, durava uns 5, 6 dias. Com o tal do Gestinol, fiquei menstruada 12 dias. Me lembro de só falara palavras de baixo calão quando me referia ao tal doutor que me receitou aquela joça, que só me fazia sangrar e sangrar e nada da dor parar. Até, que no 13° dia, aquela sangria parou. Etaaaa Jesus bom! A dor, não diminuiu com o passar do mês, pensei: "de repente, no próximo período melhore a situação." Mas mulher gosta de se iludir mesmo, não é não?! No mês seguinte vieram escapes, a dor continuou e nada melhorou. Acho, até, que piorou. Sim, porque, se eu fizesse esforço, sangrava. Se pegava peso. sangrava. Se tomava susto, sangrava. Qualquer coisa que mexesse com o meu psicológico, me fazia sangrar. Mas gente, que raio de remédio é esse e pior, que doença é essa?!
Passado os três longos meses, voltei no médico. Contei tudo o que aconteceu. Estava super brava com ele, diga-se de passagem. Eu hein, me receitou algo para ajudar ou piorar de vez com a minha vida?! Ele achou estranho, me passou a tal ultra. Foi ai que tudo piorou de vez!