Estava deitada no sofá, vendo televisão. Não me recordo o que era, mas sei que não era algo que pudesse me estressar ou fazer pensar na vida, era algo normal que me distraía. Quando, do nada, minha boca começou a ficar torta, já não tinha domínio do meu lado esquerdo do corpo. Aí sim comecei a ficar desesperada, pensei: "estou tendo algum treco, um AVC, morrendo, sei lá! Preciso ligar para a minha mãe agora!"
Ela estava de plantão, aliás, ela sempre estava de plantão nos meus piores momentos, maiores crises de endometriose. Não a culpo. Se eu tinha um teto, algo para comer, foi porque ela aguentou a barra sozinha, já que nessa altura do campeonato, eu não tinha como contribuir financeiramente, afinal, quem iria contratar uma enferma? Ainda mais na minha profissão onde exige que a pessoa seja atuante? NINGUÉM! E assim foi. Quer saber, eu estava estressada sim, embora estivesse, apenas, vendo televisão. Estressada por ser doente e ser inútil.
Liguei para ela e sem titubear, joguei: "mãe, me ajuda, estou morrendo! Estou com a boca torta, meu lado esquerdo parou, não consigo levantar do sofá." Ouvi um choro do outro lado da linha e um desespero tomar conta da pessoa que é a mais calma que eu conheço. Ela pediu para que eu mantivesse a calma e desligou. Alguns minutos se passaram e liga meu pai, aos berros com seu também desespero: "estou pegando um táxi e indo praí. Vai devagar até o interfone e fica por lá, para me atender. Aguenta firme!" Em seguida, liga uma amiga - um dia faço um post sobre ela - e diz: " tô pegando o carro e indo praí." Mas gente, o que minha mãe fez?
Esperei quem chegasse primeiro para me ajudar a sair da situação de inércia que eu me encontrava. Minha amiga, curiosamente, chegou primeiro, justo ela que mora mais longe de mim que meu pai. Consegui, jogando meu corpo, ir até o interfone e fiquei me apoiando na parede. Ela subiu, me ajudou com o banho e, Fisioterapeuta, começou a fazer massagens no meu braço, execício na minha boca...quando meu pai chegou, eu já estava pronta e descendo rumo ao hospital.
Chegando no hospital, minha mãe já estava lá. Desesperada, chocada em me ver assim. Confesso que, a endometriose doía e muito, mas a sensação de ter o corpo paralisado era muito pior. Fui logo atendida. Lembro que o médico pegou meu braço esquerdo, levantou bem no alto e soltou. Ele caiu como se não fizesse parte do meu corpo. E passou vários exames, remédios intravenosos, subcutâneos...como fui espetada naquele dia! Queria que eu ficasse internada e para a minha mãe disse: " o que sua filha teve foi uma isquemia transitória, devido a algum estresse que ela possa estar passando. Acredito que se ela seguir as recomendações, logo irá passar. Mas a Fisioterapia vai ser fundamental."
Pela pura sorte e graça do destino, eu tinha uma fisioterapeuta a minha disposição. E pegou pesado. Era exercício todo o santo dia para endireitar minha boca e minha mão que não abria. Fiquei com o braço torto e mão fechada - sem piada - durante cinquenta dias. Era complicado ter que depender de alguém para comer, tomar banho, ainda mais com minha mãe mais ausente do que presente. Praticamente, minha amiga passou a morar comigo, ou eu com ela, já que ela me colocava no carro e me levava para a sua casa, para cuidar melhor de mim. Quando minha mãe não estava em casa ela vinha para cá ou me levava para lá. Isso durou vários meses, para ser mais exata, desde que descobri a endo.
Aos poucos tudo foi suavizando, minha vida voltando a ser sofrível só por causa da endometriose...mas, ainda seguindo uma recomendação médica, eu estava proibida de me aborrecer, sofrer fortes emoções, esquentar cabeça.. afinal, além de recém infartada, eu tinha sofrido uma isquemia. Olha a que ponto eu cheguei! Tudo isso em um ano! Mas, perto do final do ano, fui agraciada.
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