quarta-feira, 2 de abril de 2014

A descoberta Parte Final

Fiz a ultra transvaginal com a urgência que a situação pedia. Quando cheguei no local para fazer, não imaginava o que estava por vir, o que iria escutar. A médica que realizou o exame ficou o tempo todo com o semblante sério, preocupado. Vendo aquilo, não aguentei e perguntei: "está acontecendo alguma coisa? Estou vendo a senhora tão séria. Pode falar, eu aguento!" Não, eu não iria aguentar o que ela estava para me falar. 
Foi então, que após um tempo em silêncio, ela me questionou:" você já está fazendo tratamento para curar desse tumor que você tem?" COMO É QUE É? TUMOR? Achei aquilo uma piada de péssimo gosto, até porque, três meses atrás realizei o mesmo exame e não tinha tumor nenhum! Perguntei: "como assim tumor? Eu não tenho tumor algum!" Ela continuou: "tem sim. Olha ele aqui!" Mostrou na tela. Meu chão veio abaixo. Coisas do tipo: vou morrer, como vou contar isso a minha mãe, como vai ser a minha vida, como assim eu tenho um tumor...vieram em minha cabeça de segundo a segundo. Confesso que ela explicou tudo, mas não a ouvia. Minha mente e meu coração não me deixavam ouvir mais nada.
Voltei no médico e mostrei o exame. Chorando. Ele viu o exame e sem pestanejar, soltou: "seu caso é um dos mais sérios que já passou pela a minha mesa. Você terá que ser operada, Raphaele e já aviso logo que não poderá ser mãe." Chorei mais e mais e muito mais. Não sabia se chorava por meu caso ser grave, se chorava por ter que ser operada ou desabava por ele ter dito, sem piedade alguma, que eu jamais seria mãe.
Parecia que nesse dia ele estava inspirado em me fazer sofrer. Continuou despejando bombas em cima de mim: " Não vou poder lhe operar. Não quero colocar ainda mais sua saúde em risco, pois se eu a operar, terá que ser de barriga aberta e tenho medo das complicações cirúrgicas isso pode causar. Recomendo que procure um outro médico, especializado em endometriose e que opere por videolaparoscopia. Aliás, conheço um, vou lhe repassar a ele." Questionei: " mas se a minha situação é tão grave, por que está fugindo assim? Já me trato com o senhor, me opere, por favor!" Ai, ele finalizou: "posso operar sim, mas cobrarei 10 mil reais por fora, sem recibo." MAS COMO ASSIM? EU PAGO PLANO DE SAÚDE PARA QUÊ??? Fez -se um silêncio no consultório. Minha mãe olhou para mim como quem diz: "não fala nada. Vamos resolver isso. Vai dar tudo certo!" Eu e minha mãe sempre conversamos muito com o olhar e foi no olhar dela que pude ver o quanto estava sofrendo, mas querendo se manter forte para me ajudar.
Ele pediu que eu continuasse com o Gestinol e receitou mais um remédio, o Ômega Mater. Segundo ele, iria me ajudar com as fraquezas que eu sentia, me ajudaria a ficar de pé, pois nessa altura do campeonato, eu já andava curvada, por conta das fortes dores que sentia. Pediu uma RM, TC e o CA 125. Fiz todos os exames. Em todos foi comprovado: endometriose profunda, alastrada para outros orgãos, como bexiga, intestino e diafragma. Quanto ao CA, deu uma alteração considerável, indicando que eu estava em estágio cancerígeno. 
Meu mundo desabou. Entrei em depressão. Chorava desde a hora que acordava, até a hora que iria dormir dopada. O Gestinol junto a depressão fez com que, em 40 dias, eu perdesse 15kg. A doença foi avançando, a ponto de andar carregada de um cômodo a outro, precisar de alguém para me dar banho. Precisar ficar internada toda semana, pois os remédios que eu tomava para dor, já não solucionavam mais o meu problema. Enquanto escrevo tudo isso, passa um filme em minha cabeça e o choro é inevitável. Sofri muito. Dizem e acredito que Deus tem um propósito para cada um, se esse era o meu fardo, tinha que passar. Ainda passo.
Fui no médico que ele me indicou. Chegando lá, ele me examinou com toques, disse que já estava no meu reto a doença e o melhor - estou sendo irônica - ele ainda iria me dizer: " Seu caso é grave. Caso você não saiba, endometriose não tem cura. Precisa ser operada para amenizar esse problema, mas não vou colocar meu CRM em risco. Vou precisar de uma grande equipe para lhe operar, por isso, quero 20 mil reais em espécie e sem recibo" E concluiu: "é isso ou você procura uma rede pública, pois dificilmente algum médico particular irá querer lhe operar ou o plano irá cobrir com as despesas." Mais uma vez minha mãe me olhou e sinalizou para que eu me levantasse e encerrasse a consulta. Tanto ele quanto o primeiro médico que me consultou, nunca mais me viram.
A solução era hospital público, mesmo eu tendo plano de saúde? Beleza. Lá fomos eu e minha mãe. Chegando lá, mais um baque: centenas de mulheres na fila de espera, greve de anestesista e caso eu esperasse, minha cirurgia seria no final do ano seguinte. Ou seja...fui até lá a toa. E detalhe: era o único hospital público que tratava de mulheres com endometriose na cidade. Mais uma derrota. Mais uma vez voltando para casa aos prantos. Mais um dia de sofrimento. 

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